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Mostrando postagens de Julho, 2017

GRANDE HOTEL

Chego um pouco antes do horário estipulado para o check-in. Dou um tempo no bar do hotel, que tem um enorme “Hipotálamo’s” em neon azul piscando na porta.

Meia hora e duas taças de vinho depois, adentro o aconchegante salão do cerebelo. Sento-me num sofá de córtex e abro o jornal do dia, ainda intocado sobre a mesinha de centro. Avisto de lá o saguão lotado. Pelo menos umas 70 pessoas, vestindo túnicas verde-água, buscam alojamento na memória. Querem acomodação a todo custo, mas poucas são aceitas pela recepção.

- Temos que ser seletivos, infelizmente não há lugar para todos.
- Mas eu fiz reserva...

Na recepção também ficam as chaves dos acontecimentos, alinhadas para facilitar o acesso quando necessário.

Escadas em caracol fazem a comunicação entre três imensuráveis pavimentos. São dezenas de quartos, cada um deles contendo 365 dias vividos. Pelos corredores há quadros de pessoas e lugares. Uns estão impecavelmente conservados, a tinta ainda parece fresca. Outros têm carunchos nas moldura…

ALONELAND

É pouco provável que consigamos deter o processo de desertificação de Aloneland. Não a geográfica, mas a desertificação humana mesmo. 

Devagarinho vamos tendo a nítida confirmação de que há, em nosso povo, uma espécie de predestinação ao não-acasalamento. O que não significa um comportamento assexuado, mas um conformismo em lidar com a libido sem a necessidade de outrem.

A estonteante oferta de pornografia na internet, para grande parte das pessoas, é um convite irrecusável à autossuficiência. Com tantas e cada vez mais realistas variações de bem-bom virtual, para quê complicações de relacionamento, DRs até tarde da noite, novas responsabilidades e contas a pagar, papel passado em cartório, sogras, cunhados e congêneres?

É nessa conveniência que está o maior perigo. Um casal precisa ter dois filhos para que a população permaneça basicamente a mesma. Isso é aritmético e incontestável. Se entretanto, esse suposto casal gere apenas uma criança, bastará uma única geração para que o número de…

SEM PIZZA? SEM CHANCE!

Existe pouquíssima coisa melhor que pizza, embora ninguém possa garantir que essas pouquíssimas coisas sejam, de fato, melhores que ela. Mas, se existirem mesmo, seriam tão poucas que caberiam no espaço de meia pizza brotinho. Com folga.

Não havendo pizza, no mínimo três quartos dos motoqueiros também não existiriam ou estariam fazendo outra coisa na vida, pois não teriam o que entregar. 

Esse nosso mundinho, que já não é lá o melhor lugar da via láctea pra se viver, ficaria insuportável. Até o universo corporativo seria afetado. Os gráficos-pizza do powepoint precisariam se chamar gráficos-queijo, gráficos-torta ou coisa parecida. As esticadas de expediente, madrugada adentro, nas agências de propaganda e redações de jornal, resultariam compreensivelmente improdutivas sem a consoladora perspectiva da uma redonda crocante, de preferência com borda de catupiry ou cheddar, para tirar o estômago das costas e saudar o sol nascente. 

A vida noturna de Sampa seria no mínimo um terço menor, ou …

CÉLULAS-TRONCO, CABEÇA E MEMBROS

A ciência moderna está apenas arranhando a superfície de uma revolução profunda, que mudará radicalmente todos os fundamentos médicos acumulados até agora pela humanidade: as células-tronco e sua infinitas aplicações.

UM NOVO TRONCO A PARTIR DE CÉLULAS-TRONCO
Ao invés de um pulmão, um rim, um fígado ou um coração, já podemos antever para futuro bem próximo a produção, via células-tronco, do tronco inteiro do indivíduo. Incluindo músculos, vasos, artérias, cartilagens, gordura, pele e adjacências. O raciocínio é simples e lógico: se um pâncreas, por exemplo, está caindo aos pedaços, pode-se deduzir que haja um desgaste em toda a vizinhança orgânica. Melhor a substituição do bloco inteiro ao invés de trocar peça por peça, em cirurgias sucessivas que sobrecarregam o paciente e o sistema público de saúde. Entretanto, surge com essa alternativa um certo desconforto estético, já que teremos um tronco estilo "tanquinho" sendo acoplado a braços, pernas e cabeça não tão saudáveis e atl…

A HORA E A VEZ DO PAMONHEIRO

Olha aí, olha aí freguesia
São as deliciosas pamonhas de Piracicaba
Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
É o puro creme do milho verde
Vamos chegando, vamos levando
Temos curau e pamonhas
Venha provar essa delícia
Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Mais de 50 anos aguentando essa maldita fala em looping, com esse insuportável locutor, das sete da manhã às oito da noite. Na safra do milho e na entressafra. No começo, eu dirigia o carro - um Gordini já bem velho - e não tinha locutor nem gravação. Eu mesmo anunciava a pamonha. Ia com o vidro aberto e berrando feito louco no megafone. Voltava pra casa com a mão direita cheia de bolhas, de tanto ficar manobrando a direção com um braço só. Já o braço esquerdo retornava da labuta todo seco e descascado, porque o sol só batia nele.

Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
Vamos chegando, vamos levando
Venha provar essa delícia

Depois veio a fita-cassete. Play direto no tape TKR com amplificador Tojo, virando a fita a cada meia hora. Em cima do Corcel 2, uma…