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A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ








Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção semântica se faz necessária: os naturais do vilarejo são denominados bilboquenses, os praticantes são os bilboqueiros e as garotas de torcida, que vibram nos campeonatos da modalidade, são, com todo respeito, as populares bilboquetes.

Bilboqueia-se o tempo todo, em cada esquina, nas salas de aula e nos recreios de todas as escolas, nos guichês da prefeitura e até mesmo nos velórios, onde não raro o defunto segura na mão esquerda a esfera de madeira e na direita o pino de encaixe. Reza a lenda que certo pároco da matriz, adepto fervoroso e compulsivo, foi excomungado pelo bispo de então por manter-se bilboqueando na hora da consagração das hóstias. Assim, desse incessante bilboquear fez-se o encanto e a vocação turística do município. Nos meses de alta temporada, legiões de visitantes tomam a cidadezinha. Muitos em busca de aprimoramento na prática, outros atraídos pelo matraquear das madeiras batendo - tido como um sonífero poderoso e um verdadeiro bálsamo para os workaholics das grandes metrópoles.

Não tardou para que a fama do efeito tranquilizante do brinquedo se espalhasse e  trouxesse novos investimentos. Em 1976, um discípulo do Maharishi Mahesh Yogi fundou, em aprazível colina da zona rural de Bilboquê, o Centro de Meditação Transcendental Bilboquética. Lá se reúnem, em posição de lótus, milhares de praticantes meditativos que encontram no manuseio do bilboquê um mantra dos mais eficazes e um atalho para o nirvana.

No dia 12 de junho, manda a tradição que os namorados presenteiem as moças não com buquês, mas com bilboquês de flores. É quando os mesmos ganham as mais graciosas e criativas estampas florais, que vão das margaridinhas do campo às orquídeas.

À noite, acasalam-se machos e fêmeas nativos para se dedicarem ao ofício da preservação da espécie - o que não deixa de assemelhar-se a um bilboquê carnal. Mudam, porém, os ruidos, e os caracteristicos toc-tocs dão lugar a outras e mais sensuais onomatopeias.


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Comentários

  1. Felizmente... mudou o ano, Marcelo, mas você continua o mesmo... com sua "engenhoca criativa bilboqueando à beça"... para o deleite dos acima dos 30... Refuçando meu baú... afinal, onde colocaram o meu?
    [ ] Célia.

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  2. bibloquê *

    zummm...tec! zum...zumm...tec!
    zuummm...toc! zumzuumm...tec!
    zu..zummm...CLOC!...huumm!...ufaaa!...

    Marco Bastos

    Olá Marcelo. Achei no meu baú essas onomatopéias. Além dos 30 são somente alguns, e não dá pra competir com o Rei, que já tem pratica de 400 anos. Eu aprendi mais rápido, rs, e até fui craque nisso.
    Há algumas variações no nome (*) da engenhoca e algumas registrei aqui: http://www.recantodasletras.com.br/poetrix/146363.
    Mantive o nome da infância, porque nas Andradinas muita coisa errada se falava certo. O inverso nem sempre é verdadeiro, e na ZYR23, tinha até programa em japonês. rs.
    Sua crônica me trouxe boas lembranças - bilboquê no estribo duma charrete era um pouco mais difícil. rs.
    Obrigado. abraços.
    Marco.

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  3. Oi Marcelo, mais um vez você me fez relembrar a minha infância quando fui eximia bilboqueira. Adorei os namorados oferecendo bilboquês de flores. Abraços

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  4. Um ano bem bilboquê para você, querido! Diversão, arte, criatividade e alegrias!!! Beijão!

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  5. Nas primeiras tentativas que fiz com bilboquê vi que não sou do ramo e o deixei de lado. Nem me lembrava mais o que é um bilboquê. Gostei do texto. Meu abraço.

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  6. Eita!!! Em algum momento do texto achei que encontraria este objeto nas lojas de brinquedos antigos, depois vi que o lugar ideal para encontrá-lo seria nas farmácias, onde certamente estariam com tarja preta, por fim percebi que o tal bilboquê também se encontra nas floriculturas, mas acho que eles estão mesmo é nos sex shops inspirando os apaixonados. Nunca brinquei com um, mas o bilboquê deve ser muito divertido, afinal tem mil e uma utilidade.

    Um abraço, Marcelo!!!

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  7. Caro Marcelo, minha experiência com o bilboquê nunca foi das melhores pois nunca consegui acertar o buraco, do bilboquê, é claro! Vou ter que me contentar com a indicação terapêutica de relaxante e indutor do sono... Você tem algum artigo pra que eu possa citar no Blog? Por falar em artigo, fui lá na referência e achei este link aqui: http://www.desenvolvimentoeducacional.com.br/2012/01/bilboque-de-garrafa-pet.html, que ensina como se faz o bilboquê de garrafas PET!!! O Consoantes Reticentes também é acadêmico-educacional!!!
    Hoje é minha vez de agradecê-lo pela aula!
    Abraço.
    PS: As bilboquetes de que tanto falou também existem aqui na minha cidade, porque será?

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  8. Alessandra Leles Rocha6:31 AM

    Marcelo,
    Lembrei-me da minha avó materna que na infância ganhara um bilboquê. Mas, adorei o texto pelas entrelinhas!!! Os "modismos" alienantes que surgem nas sociedades para exercer a sua manipulação racional. O nosso "bilboquê" do momento será o BBB!!! Triste não?! Um bjo grande e votos de uma excelente semana, Alê

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  9. José Carlos Carneiro6:33 AM

    Fez-me lembrar de uma das vezes em que estando na praia e chovia uma barbaridade (poucas vezes tive esse azar), e eu e a turma que ia junto e para matar o tempo, jogávamos o referido brinquedo. Como só achamos um brinquedo para comprar, mais haviam brigas (de mentira) do que jogo. E não fizemos campeonato, pois a maioria de nós era picareta. No que me diz respeito e sem pretensão de ser vidente, advinho ou vate, me parece que já sabia que tempos mais tarde eu leria uma matéria excelente sobre o brinquedo e seus fanáticos praticantes.
    Um abraço.

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  10. Marco Antonio Rossi6:34 AM

    Bom dia e um otimo final de semana. Por ser dia de reis magos, não esqueça as romãs.
    Agora, voce pode escrevwer sobre io io, carrinho de rolimã, rodar pneu, bater bafo com figurinhas, jogar pedrinhas, e outros....., quem sabe ressucitamos os brinquedos de rua e as crianças deixem um pouco os computadores......
    Abraço
    Rossi

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  11. Jorge Sader Filho6:39 AM

    Confesso que antes de ler o final do texto já havia pensando na ação multifacetada do tal bilboquê( sacumé bilboquete…mente fértil é fogo).
    Adorei! Mas gostava mais daquele que literalmente destruía nossos pulsos lembra?
    Beijão Marcelo.

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  12. Nubia Nonato6:41 AM

    Confesso que antes de ler o final do texto já havia pensando na ação multifacetada do tal bilboquê( sacumé bilboquete…mente fértil é fogo).
    Adorei! Mas gostava mais daquele que literalmente destruía nossos pulsos lembra?
    Beijão Marcelo.

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  13. Vixi! Isso dói pra caramba quando pega no ossinho frágil do pulso! Mas vamos combinar uma coisa: eita passatempo pra lá de bom esse! Deveria ser adotado nos hospícios como terapia. O que os loucos farão com o bastão e a bola não sei, mas que teriam várias utilidades pra eles, ô se teria!

    Abração, moço inteligente!

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  14. adoro receber seu convite para vir aqui ler.. cada dia uma nova e ótima surpresa... comparação excelente a do bilboquê brinquedo com o bilboquê carnal..que imaginação fantástica a sua..beijo

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  15. Hahaha, adorei! Infelizmente, minha mãe ficaria brava comigo, como antigamente quando me proibia de falar coisas feias, se eu escrevesse o que estou pensando... Mas, pelo menos, posso falar que o povo deste lugar não teria problemas em "pular do guarda-roupa" (técnica pouco ortodóxica, utilizada por casais adeptos de fantasias sexuais, como por exemplo pular de um guarda-roupa para a cama onde se encontra a parceira, vestido de Batman e acertar o alvo, se é que me entende)...
    (...Bem, mãe... Como antes te digo, eu não falei, mas eu estou pensando!)
    Bilboque... Quem sabe tem este nome em homenagem à Bilbo Bolseiro... Irmão do Diabolô... Brincadeiras de infância... (mesmo eu tendo apenas 25 anos e 23 meses de idade...)
    Viajei legal! Um beijão!

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  16. Gina Soares6:12 AM

    rss… adorei voltar ao passado… como eu achava essa coisa dificil…. rss
    Preferia tambem o bat beg, como chamavamos por aqui, que deixava nosso braço todo cheio de hematomas e inchadão… rss

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  17. André Albuquerque6:14 AM

    Bilboqueando tanto, não haveria tempo para a corrupção,rs,rs.Quem sabe, uma solução para a Pindorama ?Excelente texto Marcelo;criatividade e humor inteligente .Forte abraço.

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  18. Edson Maciel5:59 AM

    Muito legal Marcelo.

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  19. Claudete Amaral Bueno6:01 AM

    Olá!
    Nunca fui fã do Bilboquê....Nunca tive habilidade, nem paciência p/ receber os inevitáveis "trancos"...
    e o som tb me irrita....prefiro outros sons.......rssss
    Um abraço
    Claudete

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  20. Mara Narciso6:05 AM

    A finalização foi tão perfeita quanto um encaixe de bilboquê, quando porca e parafuso mostram que foram feitos um para o outro.

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  21. Antonio Fonseca12:39 AM

    Desde o início pressenti o paralelo prazeroso da brincadeira e o ato sexual. Acredita que até substituí o toc-toc pelos: não, vai, assim, mais, mais, ai, ai, aiiiii. Puxa vida, não sabia que eu tinha a mente tão suja! Afinal é só uma bela criação literária…

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  22. rsrsrs... o "Bilboquética" do antepenúltimo parágrafo, ô mente!, caberia melhor no último, onde a farra carnal é descrita... abs

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