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Mostrando postagens de Maio, 2010

ÁTOMOS DESEMBESTADOS

Podem tachar-me de saudosista, mas existem coisas que o chamado mundo moderno só fez involuir ao invés de aprimorar. E escrevo isso com as mãos trêmulas, os olhos saltando das órbitas e a justificada ira dos que se sentem logrados e cansados de levar gato por lebre. Não é a primeira vez que isso acontece no semestre, nem provavelmente será a última até que chegue a primavera por esses meridianos. Mas desta feita as consequências beiraram o intolerável.

Explico. Ainda anteontem, no meu costumeiro caminho de volta do trabalho para casa, apeei meu pangaré na venda do Agenorzinho Ulceroso a fim de repor uns gêneros de primeira necessidade em minha modesta e desfalcada despensa. Coisa trivial: três quartos de um queijo meia-cura, um palmo e dois dedos de fumo de rolo, grampos de cabelo para a patroa e um punhadinho de átomos para distrair a gurizada.

Já em casa, e desembrulhados os pacotes na mesa da copa, vi que estava tudo nos conformes com os grampos, o queijo e o fumo. Mas havia algo de …

ZEUS ASSIM O QUIS

(Pequeno exercício de escrita automática)

Zeus, num raro acesso de generosidade, resolveu dar permissão. Sim, o barbudão de pouca prosa e nenhum riso, imagine. Licença concedida, abrimos a golpe de faca o compartimento estanque, guardado a segredo de cofre e venerado feito sudário. De cara um fusca 74 nos esperava além de longe, desde meados de nunca. E esperava inerte qual relógio da matriz velha, com os dois ponteiros soldados pelo zinabre dos anos, aqueles da antitristeza das balas de coco geladas, da bola nova cheirando a couro e com a etiqueta de preço, do chenile do sofá na sala imensa de estar e ser, e estando lá, permanecer até o findar da tarde e o chegar do sono. A vizinhança toda em seu rodar de carrossel, natais se anunciando desde outubro com seus piscas, torresmos defumando vinte alqueires de sertões. E você lá, branca das parafinas de crisma e de primeira comunhão, crescendo a cinco centímetros por hora e tomada do desejo de correr países outros de fronteiras bambas, mon…

SALVE-SE QUEM PUDER

- Pronto, Centro de Valorização da Vida do Salva-Vidas – CVVSV. Por favor, seja breve pois nossas linhas estão congestionadas.
- Tô sem vidas pra salvar. Antes tivesse cem vidas pra salvar, tá me entendendo?
- Entendo sim. E como entendo. Você é o décimo sexto que liga hoje. Ontem foram trinta e cinco.
- Ninguém tá precisando ter a vida salva, moça. Mar calmo, banhistas felizes com Sundown 45 besuntado até no cofrinho, nenhum desavisado se debatendo na rebentação. Um tédio. Gosto de viver perigosamente, pra isso escolhi essa vida de salvar a vida dos outros.
- Relaxe, pense que poderia ser pior. E se tivesse que resgatar dez vovôs gordos e sem preparo físico se afogando ao mesmo tempo? Daqueles que levam melancia, torta de sardinha e papagaio pra praia, já pensou?
- Mas pelo menos eu me sentiria útil, ainda que conseguisse salvar um gordo só. Bem ou mal estaria honrando o salário no fim do mês. O duro é ficar tomando sol o dia todo naquela cadeira em cima da escada. Me sinto um usurpador, …

FILHO DA MÃE

Começando do começo: sou eu a mãe daquele filho da mãe. E chamam-no assim de forma caluniosa e sem motivo aparente – embora o fato de ser filho da mãe, por si só, implique na constatação óbvia dele possuir uma genitora, coisa que qualquer ser humano tem ou teve um dia.

Mas vocês sabem muito bem do que estou falando, em se tratando do meu famoso e difamado filho, que começou no futebol de várzea e hoje honra os quadros da FIFA. Ao longo do tempo regulamentar o filho da mãe acaba virando filho de outra coisa, conforme os ânimos na arquibancada se acirram e a cerveja faça o seu maldito efeito.

Não é possível que essa injustiça se perpetue impunemente. É preciso que entendam que o que ele faz ou deixa de fazer dentro daquelas linhas brancas é problema dele, e não culpa minha. Meu filho é maior, vacinado e age de acordo com suas convicções, abalizadas logicamente pelas regras do esporte bretão. Só que existe uma coisa chamada julgamento subjetivo, e para isso inventaram o árbitro. Sua decisã…

SERAFIM E QUERUBIM

- É, Querubim. Esse negócio de aquecimento global é o assunto da vez lá embaixo. Agora mesmo passou uma onda de rádio de raspão na minha nuvem, falando disso de novo.
- Ainda se o problema fosse só deles, mas sobra pra gente também. O calorão bate primeiro aqui, no nosso costado. E costas de anjo, convenhamos, são bem mais sensíveis. Lá na Terra até vale a pena ter as costas quentes, mas em âmbito celeste não tem serventia nenhuma.
- Um bloqueador com fator de proteção solar de 350 seria o céu pra gente.
- Ô. E nem precisa tanto, viu. Um bom guarda-sol já ajudava. É engraçado, Serafim, a gente sofrendo aqui e aqueles terráqueos imbecis com uma ideia totalmente deturpada a nosso respeito. Quando eles dizem que estão nas nuvens, é porque atingiram o auge da felicidade. Só a gente pra saber que a nossa vida não é tão molinha assim.
- É que eles não viram o estado de nossas túnicas com fumaceira do vulcão da Islândia. Lá é fácil de resolver, eles cancelam os voos e pronto. Mas aqui não tem co…