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SANTA LETÍCIA


Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.


Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.


Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares e o samba-enredo dos blocos e escolas no carnaval. Recebeu, da câmara dos vereadores, o título de Cidadã Benemérita, mesmo não tendo feito benemerência alguma. Nos dias cívicos, subia ao palanque e fazia sombra ao poder constituído. Sem que soubesse, pois provavelmente a coisa se articulava na surdina para lhe fazer surpresa, era tida como certa a aprovação da mudança do nome do município para Leticiópolis.


Para Letícia, só boas novas. Que não viessem a ela com problemas e aborrecimentos. Poupassem-na de boletins com notas menores que dez, da morte súbita de entes queridos, do furacão em Guadalupe e suas 2774 vítimas. Para o olhar e a degustação de Letícia, só as bem-aventuranças, os objetos desinfetados e as obras-primas consagradas pelo tempo. Só os heróis condecorados por ações de bravura, só o mais entorpecente incenso da Pérsia. Conhecer Letícia e jogar-se sem reservas aos seus pés era o ticket para o paraíso. Para isso organizavam excursões e vigílias à sua porta, na esperança de vê-la de relance. E nessa tietagem havia respeito, pois ninguém ousaria pedir-lhe um autógrafo ou uma foto ao seu lado. Sabiam que Letícia era exclusiva das molduras e altares, a ela faziam novenas e promessas embora ninguém a tivesse nomeado padroeira ou benfeitora. Na verdade, daquela boca de 28 anos quase ninguém ouvira palavra, e quanto mais muda Letícia mais ensurdecedora era a sua adoração.


Quando souberam que naquela manhã havia sido vista, sem motivo aparente e por um cochilo do querubim estrábico, nas imediações da estação ferroviária, correram esbaforidos o bispo, o promotor de justiça, o prefeito safenado, o grão-mestre, o diretor do colégio e o presidente do clube. Mas o trem chegou mais rápido e a encontrou nua, deitada nos trilhos.



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Comentários

  1. Pobre priosioneira de suas virtudes e desejos.

    Como sempre, um belo texto. Parabéns Marcelo!

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  2. João Batista8:34 AM

    achei um espetáculo. Muito bem bolada. Parabens!!! Feliz fim de semana.

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  3. Maria Ester Esteves8:36 AM

    Uma poesia!...

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  4. Amarrada a uma santidade que ela nunca alimentou, não suportou a pressão de ser a virtude em carne e osso. Deve ter se apaixonado por alguém e, sabendo que o carimbo da impureza seria impiedoso, permitiu-se mostrar sua intimidade física antes de partir. Desde então, a lenda só fez aumentar.
    Genial!!! prbs.
    em tempo: teve texto A/C DO SETOR DE RH no jornal de hoje.

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  5. Rosa Pena3:10 PM

    um miniconto dos bons!
    beijos e feliz natal meu amigo
    rosa

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  6. Celi Gustafson Estrada3:11 PM

    E daí, o que aconteceu?
    Abraços,
    Celi

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  7. Eduardo Lara Resende3:12 PM

    Inspirador, meu caro Marcelo. E inspirado. Sem retoques - e Santa Letícia que vá relevando, se puder - meus parabéns!

    Abraço.

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  8. Maria Inês Prado3:15 PM

    Marcelo,

    Boa tarde.

    Gosto do seu jeito de surpreender o leitor. Ótimo!!


    FELIZ NATAL!!

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  9. Ana Christina Victorelli5:55 AM

    Quantas Leticias pela vida ou quantas vidas tranformadas em Leticias... De fato, só ob os trilhos do trem ou das drogas; o trem é mais eficaz... Bjos, aaadoreeiiiiiii !!!!!! Bjos

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  10. Evelyne10:20 AM

    A adoração negou a vida a Letícia em seu texto ágil, bonito e suave, apesar do final trágico. É sempre um prazer ler você. Beijos e boa semana.

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  11. Sandra Nogueira6:20 AM

    oi amigo, que beleza de texto, não canso de elogiar. Essa ironia fina é o máximo.
    um grande abraço

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  12. Ana Maria6:21 AM

    coitada dela?
    Né?

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  13. Letícia desarmada, sem palavrão, cumpriu tudo à risca, passou a régua, sem botão.

    Antes ela do que eu... ;)

    Luciana

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  14. Belvedere Bruno3:27 PM

    Chocante! Inusitado! Nota MIL. 1000000000000000000000000

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  15. Marco Antonio Rossi3:28 PM

    antes nua nos trilhos, que nos bordéis das bocas da vizinhança.
    santa.........
    Abç
    Rossi

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  16. Cristina Siqueira11:22 PM

    Oi Marcelo,

    O melhor conto seu,dos que li até hoje.Meio Garcia ´Marques.Fluido,gostoso,delicioso.
    Parabéns

    Cris

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