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Mostrando postagens de Dezembro, 2009

MOACYR MANTOVICCI, ÍMPAR ENTRE OS ÍMPARES

Logo após marcar a ferro e fogo as duas dezenas de bois recém-chegados, Moacyr Mantovicci banhou-se, enfiou como de hábito a cara nos livros e compreendeu finalmente a diferença geográfica entre o clima semiárido das regiões setentrionais e a depressão marginal Sul-Amazônica. Em seguida pensou triunfante, estalando os dedos e exalando sabonete barato, que eram quinze os volumes sobre a mesa e que nenhum deles revelaria o que de fato levou Gutenberg à descoberta da imprensa – se o amor à evolução da humanidade ou se a solidariedade a um seu primo em segundo grau, monge copista com sérios problemas de coluna e início de catarata. Estas e outras conjecturas não contempladas pela história oficial, quando se apresentavam à sua reflexão, tomavam boa parte do seu dia e não raro avançavam pela noite, deixando-o insone a rabiscar apontamentos.

Nas raras ocasiões em que se punha a falar pelos cotovelos, reunindo seleta audiência à varanda da fazenda, mostrava que a modéstia estava a léguas do se…

O ZEN NECESSÁRIO

Bem, ao que tudo indica o seu caso é bastante simples, embora as abordagens mais recentes recomendem uma conduta multidisciplinar com observação constante e rigorosa. Comece com três horas semanais do velho, bom e inescapável divã, nas velhas, boas e inescapáveis sessões de 50 minutos cada. Olhando para o teto, a parede, a micose na unha do mindinho ou qualquer outra coisa que não seja a cara do analista, vá desembuchando o que der na cachola. Mesmo que em doses homeopáticas, lembrando que homeopatia séria exige acompanhamento de médico habilitado e uma farmácia de manipulação de absoluta confiança. Acredite no que a numerologia e o baralho cigano profetizam para os seus próximos dez minutos de vida, transcenda os véus ilusórios da razão e visualize o terceiro chakra cercado de runas e patuás de Oxóssi por todos os lados. Caso não consiga visualizar nitidamente, é aconselhável consultar um iridólogo que prescreva shiatsu e florais concomitantemente à terapia de vidas passadas. Leia o …

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

CEIAS

I

Ana Carolina parecia particularmente bela naquele Natal. Havia algo na proximidade do advento que lhe dava um frescor extra, de imediato percebido até pelos cachorros da vizinhança. Olhava sua imagem disforme numa das bolas da árvore, e só nas bolas da árvore se via deformidade. Ela, a perfeitíssima da vez, tenra como um tender. Era só a polpa da carne do mundo, mas uma carne casta de 14 anos, que até o Natal passado ainda acreditava no bom velhinho. O mesmo Papai Noel oficial do quarteirão que agora cofia a longa barba com olhares pouco cristãos para suas pernas. “Ho, ho, ho, que ceia” – pensa quase em voz alta.

II

Por mais bem feito que seja, o melhor dos pudins comuns não iguala o pior Christmas Pudding, alteza das mesas todas, de South Kensington a Windsor. Mildred e Richard dividem o sofá, aprumados e solenes como numa foto de colégio. Todos os botões fechados até os pulsos e pescoços, pelo frio e pelo recato. A guirlanda na porta data da primeira grande guerra, quase um escudo de…