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Mostrando postagens de Agosto, 2008

VOU-ME EMBORA PRA MIM MESMO

Ou é agora ou nunca mais, pensei.
Rumei decidido à cata das tardes de esteio firme, aquelas que eram substancialmente tardes de rachar o liso das calçadas, em horas e horas de ócio pra muito além do boulevard. Fui chegando e pus-me à vista das cercas mesmas das casas todas. Cercas feitas de igualdade, talhadas no esquadro do artesão, cercando as sinas semelhantes de homens parecidos no vagar e na fisionomia, no jeito de olhar a serra e de ir tocando a vida em meio a assovios e nomes-do-pai.

Eu voltando, voltava no ventre do retorno eterno, o volver infante, espesso de leite e cheiroso de talco. Entrei de fininho naqueles dias findos, sabendo do risco do reboco desprendendo, das heras há muito não aparadas e das calhas entupidas. O uísque com gelo era um guizo nas mãos trêmulas com as dez vistas que assomaram com cantoneiras nas bordas. Via em cores e confrontava ao branco e preto que ficou e que me impulsionava a cavar naqueles sítios a parte faltante de mim. E dizia, pra encorajar-me, …

BREVÍSSIMAS OLÍMPICAS

Notas do nosso correspondente enviado a Pequim
Meu leal e benevolente leitor, posso até vê-lo daqui, do outro lado do mundo, à frente da sua TV adquirida em suaves parcelas nas Casas Bahia, acompanhando os certames de Pequim e detonando sua porção de pipoca de microondas com a voracidade de um leão a destroçar o alce. Adivinho também que o amigo deva estar no momento com ambas as mãos ocupadas, uma pilotando o controle remoto e outra segurando o copão de coca ou cerveja, o que me faz supor que se encontre com a cara enfiada nos piruás que ficaram lá no fundinho da tigela, tal qual ruminante no cocho.
Pois não seja eu a perturbar o seu televisivo espírito olímpico com minhas dispensáveis notas, tão sem encanto e interesse. Contudo, aí vão algumas delas, que sou forçado a parir por estar sendo (mal) pago para isso.
No cálculo em altura, deu a lógica: dona Oberici Guedes da Costa, angolana naturalizada portuguesa, que o Guiness Book of Records aponta como o ser humano do sexo feminino com m…

AULA DE RELAXAMENTO

VAMOS LÁ, PESSOAL. INSPIRANDO... EXPIRANDO... SENTINDO CADA MÚSCULO DO CORPO TOTALMENTE RELAXADO, MOLE COMO MACARRÃO COZIDO...

É, macarrão pode ser uma boa pro almoço. Não dá tanto trabalho, abro uma lata de molho e pronto. Latitude e longitude, tenho que lembrar a definição certinha pra ajudar o Júnior na lição. O computador está no conserto, preciso pesquisar em outro lugar.

VISUALIZEM AGORA UMA LUZ AZUL, SUAVE E REPOUSANTE, ENVOLVENDO TODO O SEU SER...

Quando estava no ginásio era tudo na munheca, copiando a lápis da Barsa. E tinha que ser na biblioteca. Bem incômodo, mas pelo menos os livros não pegavam vírus. Quando muito, umas traças.

CONCENTRANDO O PENSAMENTO EM UM MANTRA OU UM OBJETO. UMA VELA COM A CHAMA ACESA, POR EXEMPLO. QUIETUDE TOTAL...

Esse eco de academia. Que quietude é possível? O mundo quieto, cale-se, Chico Buarque. Dizia tudo falando em código. Ditadura. Julinho de Adelaide, o pseudônimo que ele adotou pra burlar a censura. Nossa, eu lembro disso. Tinha uns 14 na época…

MUNDO CÃO

I Foi uma alegria quando o Seu Totó apareceu com o humaninho em casa. Uma graça - de terninho, gravata e sapato preto de bico fino. - Qual a raça dele, pai? - Não sei direito, Lassie, mas parece que é lavrador. Estava abandonado num caminhão de boia-fria. Que judiação, deu uma pena. Não resisti e resolvi adotar. Não era você que ficava me infernizando, pedindo uma humaninho? Pois então.

II
- Vamos ter que passar no human-shop pra comprar arroz e feijão pra ele, disse Dona Lulu. - Não precisa ser no human-shop, querida. Hoje em dia tem seção de produtos pra ser humano em tudo que é supermercado. Podemos dar uma olhada no Cãorrefour, no Rextra ou no Cão de Açúcar. - Nada disso, papito, melhor uma loja especializada. Aí a gente já aproveita e compra escova de dente, desodorante, talco de chulé, uns maços de cigarro e uma garrafa de pinga. - É, e também não pode demorar muito pra vacinar, disse o Tobi. Paralisia infantil, sarampo, catapora, tétano... - Pera aí, cachorrada, assim não é possível. Se…

737

Sabia que não escaparia ninguém, pelo ruído incomum e pela fissura logo abaixo de uma das turbinas. Nem por isso sua mão tremeu mais ao servir vinho para o grisalho panamenho que dela não tirava os olhos desde o check-in em Los Angeles. A echarpe com centenas de loguinhos da companhia aérea disfarçava o suor frio. Seu olhar ia da taça de vinho à turbina condenada, da consciência do dever à certeza da tragédia, não havia clima nem vontade de corresponder à insinuação daquele homem.

Se tivesse idéia das cinzas a que nos reduziremos, não perderia os últimos momentos nesse joguinho infrutífero. Pense em sua mulher, senhor. Nos filhos, no cachorro, nos negócios, não em mim. Faça um ato de contrição, um nome do Pai, por favor, desmonte esse ar patético de cobiça carnal. Torça para que haja algo acima desses 14 mil pés.

Nenhuma movimentação estranha na cabine, ninguém além dela tinha percebido. Muitos dormiam e passariam do calor das mantas de bordo para o sono eterno sem darem pelo ocorrido. …