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Mostrando postagens de Setembro, 2007

PRELÚDIO

Queria não abrir o envelope pardo e áspero, que recenderia a desgosto assim que violado. A dama da noite adentraria pelo olfato aos salões do afeto, trazendo no colo todas as memórias possíveis e imagináveis.

Entregar-se conformado à morte quando ela viesse, sereno e consciente. Como seria no inverno serrano, os ossos carcomidos guardados pelo mármore mais frio dos mármores mais frios, sem ninguém a recorrer ou regaço a se abrigar? Sua tumba, imaginava-a simples e sem epitáfio. Queria ficar ali mesmo, na fazenda, talvez embaixo do grande ipê branco. Essas inquietações lhe trouxeram a imagem de Paula, raspando a parafina escorrida no chão sempre que se velava alguém na sala de visitas. Prosseguiu assim por uns minutos desenterrando mortos esquecidos da família, em seu descanso no cemitério velho de Villa Ângelus.

O açoite do vento faz balançar arreios ressecados, utensílios soltos rangem na cisterna.

- Posso servir o jantar, doutor Sandro?

Sem que ouvisse resposta, a bondosa Laura ia dispo…

AMORECOS

I
- Me dá um trago, vai.
- Ué, não é você que ontem mesmo disse que ia parar de fumar?
- Hum, olha quem fala. Você parou, por acaso?
- Mas também não prometi nada. Eu prometo coisas que posso cumprir. Esse céu lindo, por exemplo, esse veludo azul com respingos de prata...
- Nossa, baixou o Olavo Bilac?
- Então, esse céu aí que nem em Shangri-lá se vê assim. Eu seqüestraria agora e decalcaria nos seus seios, se você mandasse eu estaria disposto.
- Então traz.
- Eu disse que estaria disposto. Futuro do pretérito. Agora não estou.
- Ah.

II
- Só eu mesmo, uma tonta, tão pouco voluntariosa, sem amor-próprio nem coisa melhor pra fazer em casa, tão minimamente exigente, pra vir torcer por você num inter-clubes de peteca às 4 da tarde de sábado.
- O amor é lindo, honey.
- É lindo e bobo, besta, mentecapto, retardado, autista, acéfalo. Tenha dó, até fazer xixi é mais emocionante que isso.
- E depois daqui? E sua quedinha por esportistas ofegantes? E esse meu fogo todo, aquecido pelo jogo? Que me diz?
- Sei, …

PESARES DA CARNE

Como era possível alguém ser mais feliz que ele? Seu cercadinho era uma cápsula a lhe salvaguardar das patas e das patranhas dos homens. A proteção e o aconchego do pai e da mãe, solenes e permanentemente ao lado, leite quente na hora que quisesse, um verde vicejante a se estender por léguas, convidando a toda sorte de aventuras. Havia o sol bastante, a chuva necessária e a lua velando seu sono filhote em moitas de napiê. E tudo tão perfeitamente se assentava que mesmo do esterco a natureza lhe oferecia formosos cogumelos, quando garoava manso.

Assim correram luas e sóis prenhes de nada que acontecesse. Até a chegada da van branca, com seus homens brancos, de aventais brancos salpicados de vermelho.

Entreato. Amnésia de quadrúpede. Nada rebanhamente se sabe do que de fato sucedeu no interim de qualquer dia até a véspera de dia qualquer.

Quando se deu conta estava embaixo de uma ponte. No pôster mal-colado na pilastra de concreto, o candidato a vereador lhe sorria confiante, fazendo o “V”…

O MBSC E O TORNEIO DE ABDOMINAIS

Respeito as categorias e organizações formalmente constituídas, bem como seus direitos reivindicatórios. Mas desde que suas bandeiras sejam factíveis e que se manifestem pacificamente, sem comprometimento da ordem e do direito de ir e vir da população. Não foi o caso da arruaça travestida de protesto conflagrada pelo MBSC – Movimento dos Botões Sem Casa, na última quinta-feira.

A exemplo do que ocorre anualmente, saíram às ruas, alinhados e em passeata, botões de todos os feitios e tamanhos: brancos e coloridos, de plástico, madrepérola e madeira, os nus e os revestidos de tecido. Até mesmo os botões da Revolução de 32, já partidos ao meio, desfilavam garbosos como numa parada da Independência. Aos gritos de “Queremos Casa!”, procuravam a todo custo sensibilizar os cidadãos de bem a abraçarem seu ideal.

O epicentro da algazarra ocorreu pouco antes das onze da manhã, quando os botões e seus líderes juntaram-se a outra manifestação em curso, esta dos descamisados, no cruzamento da Duque d…

FILHO, UM DIA NADA DISSO SERÁ SEU

O retrato de Paolo era de 1885. O pintor assinava como “Vincenzo Ponti”, e havia sido pintado ainda na Itália, poucos anos antes do velho Paolo imigrar para o Brasil. Sentado numa confortável poltrona, tinha atrás de si uma lareira. Parecia estar trajando algo parecido com um fraque, de tom azulado escuro. Sua expressão não era nem alegre nem triste, nem confiante nem descrente. Apenas olhava placidamente para o pintor, esse tal Vincenzo Ponti que a história não legou à posteridade e de quem só se conhecia a assinatura. Nenhum verbete na Wikipedia ou ocorrência no Google.

A pintura veio para o Brasil junto com as duas malinhas surradas de Paolo e família, e anos depois passou a ornamentar a parede da casa de Luigi, o primogênito.
Correram as décadas, vieram as traças e os cupins na moldura. Melhor chamar um fotógrafo para tirar um retrato do retrato, a imagem de papai não pode se perder – pensou Luigi. Ainda bem que o retrato não se mexia, porque a exposição à câmera era demorada. Se fo…