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Mostrando postagens de Junho, 2007

VAMOS TODOS CIRANDAR

Meu eu pequeno me chama para um passeio no tempo. Achava mesmo que vinha. Me deu a mão e saímos rumo ao ingênuo de nós.

É de manhã, tem escola. Entramos na sala de aula. Carteiras de dois lugares, com buracos para tinteiro. Alguns tacos soltando. As grandes cortinas, com o vento, pareciam velas abertas. A pasta com material tem guache, canetinhas hidrográficas Sylvapen, papel almaço, Desenhocop. Um cheiro forte de álcool vindo da sala do mimeógrafo. Cartilha Caminho Suave, rangido do giz na lousa. O sino: hora do recreio. Bala de leite Kids, lanche Mirabel, Merengue da Milktex. Alguns meninos brincando de pula-sela e lenço-atrás. Os mais velhos jogavam queimada.
Depois do colégio, voltamos pra casa. No quarto, os 18 volumes do Tesouro da Juventude. Revistas Recreio. Puff de vinil. Kikos marinhos. Dois bambis de pelúcia, empalhados e com olhos de vidro. Coleção Disquinho, cada um de uma cor, com histórias infantis, ao lado da Sonata portátil e dos livros com as Jóias dos Contos de Fada. …

FERNANDA AOS SÁBADOS

Sete e quinze

Embora as evidências indicassem o contrário, ela não havia acordado de fato.
Mesmo que estivesse de pé em frente à pia do banheiro, apertando com força o resto de pasta no tubo. Até se dar conta de quem era, de onde estava e do que se passava nas imediações ia um certo tempo – abreviado consideravelmente quando tomava uma cápsula ou duas de Pfaffia Paniculata.

Sete e vinte e três

Olha as olheiras e gela. Por um momento pensa que os espelhos deveriam ser banidos, a menos em casos extremos ou para uso exclusivamente clínico (quando se coloca um desses pequenos próximo à boca do doente terminal para ver se ainda respira).

Nove e dez

Um blend de mel e cremes na cara, pepinos nos olhos, esmalte nas unhas das mãos e dos pés. Um robe atoalhado branco e nada por baixo. Assim fica enquanto escuta Rachmaninov. Ruído de correspondência sendo enfiada debaixo da porta. Sushi delivery. Vai pedir meia porção pra experimentar.

Meio dia e cinqüenta e dois

O celular recarregando, a roupa suja da …

CIRCO DOIS IRMÃOS

É logo pelo início da manhã, quando o sol se espreguiça sobre o baú de retratos, que dá pra ver o que há de pó e o que há de tempo acumulados sobre ele.

Abro sem grande vontade, com a expectativa de quem sabe há muito o que vai encontrar. Range a dobradiça e salta a foto preto e branco 6x6, como um palhaço de mola numa caixa de surpresas.

Daquela foto eu não lembrava mesmo. Soco na cara, chute na idéia, salto mortal no trapézio de outras, muitas, ternas eras. Eu e meu irmão em frente a um circo, sei lá quando, sei lá onde nem por quê. Circo e nada para mim desde sempre é a mesma coisa. Podem todos eles pegar fogo que não hão de derreter a frieza que me causam.

Mas, senhoras e senhores, se o retrato veio à tona que comece o espetáculo. O inevitável número dos panos coloridos, amarrados uns aos outros, que o mágico vai tirando das entranhas. Quanto mais tira mais falta tirar. Tento gostar da lembrança, tratá-la sem rancor ou hostilidade. Pra facilitar as coisas coloco no último volume Bein…

WWW.GAMBIARRA.COM

- Gente, o portal tá nas últimas. Ontem foram dois acessos. Eu disse dois. E um deles foi meu, que entrei pra ver como estava a audiência.

- Tás brincando. Tá feia assim a situação?

- Tive uma idéia: e se cada um for pra sua casa e ficar acessando sem parar o site? Entra, sai e acessa de novo, entra, sai e acessa... o dia inteiro. Pedimos pros amigos e vizinhos fazerem os mesmo. Pensa bem, teremos milhares de cliques por dia. Podemos mostrar as fantásticas estatísticas para os potenciais anunciantes e então...

- Sei, e sair do atoleiro. Deixa de ser idiota. Dá pra ver pelos IPs que os acessos todos vêm de meia dúzia de computadores, a concorrência vai descobrir a tramóia.

- Amigos, acho que a solução não é por aí. E se a gente forjasse anúncios?

- Como assim?

- Fácil. Vamos encher a home page de banners e janelas pop-up da Coca-Cola, Banco do Brasil, Petrobras, Extra, Nike, Submarino. Só peso-pesado, coisa grande mesmo. Já pensou a gente mostrando nossa home pro seu Antenor da padoca? O mão…

DO ÓCIO MAIS QUE IMPROVÁVEL

Nada anuncia no horizonte próximo alguns dias, poucos que sejam, de um lagartear gostoso e inconseqüente. Mas sonhar não custa, e o máximo que pode acontecer é me frustrar quando sair do devaneio.

Me permitirei levar uma mala dessas bem grandes, mas minimamente ocupada, onde acomodarei só o indispensável para a viagem. Quero ter espaço bastante pra forrá-la aos poucos, com o que for achando de melhor pelo caminho.

Qualquer lugar onde esteja será o ninho morno da preguiça. Despregarei os ossos da rede quando e somente quando me encontrar exausto de nada fazer. Me imagino acordando das sestas com o cachorro – que não tenho – lambendo minhas mãos, a implorar o afago adiado por pressas e compromissos. Me fartarei de admirar a aurora e o sol se pondo na fazenda centenária – que também não tenho – a meditar vendo mandalas nos ladrilhos da varanda.

Aí então talvez me dê vontade de escrever um texto que saia do cerne de mim direto para o papel, sem escalas no cérebro. Quase que mediúnico, desagu…