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POR QUE NÃO O JALECO BRANCO NOS BONECÕES DE AR?

Sabe aqueles bonecões promocionais de ar comprimido, que ficam de chamariz na frente de alguns comércios de bairro? Estou pensando em colocar um na calçada do meu consultório. De jaleco branco e estetoscópio no pescoço, simpaticão como ele só. Não ria, por favor. Eu nunca falei tão sério.  

Com essa crise mais crônica do que todas as piores doenças juntas, precisamos sobreviver da mesma forma como sobrevivem quaisquer outros honestos e bem intencionados prestadores de serviços. A diferença entre um excelente médico e um ótimo mecânico, além do desnível social normalmente observado, é que a nossa "rebimboca da parafuseta" fica dentro de um organismo, e não em um motor. E quem é bom no trato de rebimbocas orgânicas tem mais é que se valorizar e buscar a merecida visibilidade. Sem dramas de consciência. Temos de disponibilizar nossos préstimos de maneira não apenas objetiva, mas também original. Cada vez mais original, se quisermos nos destacar em meio a um imenso e competente e…
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ASNOS VOLANTES: SEU FIM ESTÁ PRÓXIMO

Os carros autônomos, aqueles que não precisam de motorista, já estão rodando por aí. Segundo matéria de capa da Veja da semana passada, que aprofunda o assunto e suas consequências, eles serão aproximadamente 10% da frota mundial até 2035. E quando produzidos em massa deverão chegar já elétricos, o que será uma dupla revolução. 

Tudo será muito diferente. Da forma de condução à comunicação.
As campanhas publicitárias terão que mudar completamente seus approachs aspiracionais para emplacar a novidade. O prazer de dirigir será substituído pelo prazer de não dirigir. Ninguém mais irá chamar alguém de "bração", "asno volante" e que tais. Afagos como "fdp", "aí, navalha", "volta pra auto-escola" não serão mais revidados pois 100% dos motoristas robôs tem, sim, sangue de barata. E os ciber-pilotos assimilarão os desaforos com sua característica frieza original de fábrica. 

Dependendo do conforto do carro, o caminho para o motel pode muito bem v…

TERCEIRIZANDO A TERCEIRIZAÇÃO

A terceirização chegou para ficar. E, com ela, surgem algumas questões práticas bastante curiosas. Por exemplo, se uma empresa tem o direito de contratar meus serviços como terceirizado, eu também tenho o direito de terceirizar o que iria fazer, pois a lei vale para todos.

Vamos ilustrar com uma situação hipotética. Imagine que eu ganhe quatro mil dinheiros, mas prefira contratar um desempregado por dois mil dinheiros para fazer o serviço no meu lugar, ficando portanto com os outros dois mil dinheiros para mim. Pode ser que, com essa grana, eu viva muito bem, sem precisar trabalhar. 

Digamos que isso seja uma "reterceirização", ou algo parecido. Eu agencio e supervisiono um burro de carga para "limpar a caixa de gordura", enquanto fico estirado em minha rede comendo pamonhas de Piracicaba o dia todo. 

É claro que eu teria que responder pela qualidade do serviço. Se o "quarteirizado" por mim não estiver entregando o que eu entregaria, substituo por outro, dep…

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

- Essa sua matemática é muito esquisita. Muito, muito estranha.
- Esquisita nada. Pensa comigo: quando começa o horário de verão, você é surrupiado em uma hora, e ela não vai voltar nunca mais.
- Mas quando o horário acaba, a hora retorna pra você, pois os relógios são atrasados em uma hora e tudo volta a ser como antes. 
- É isso o que você não está entendendo! Como é que eu vou explicar?... Quando adiantaram o relógio, no começo dessa porcaria que não economiza energia elétrica nenhuma, somos tungados em uma hora. Até aí tudo bem?
- Sim, lógico. 
- Então, e lá em fevereiro, quando essa hora é devolvida, não é que você "ganha" uma hora. As coisas simplesmente retornam aos eixos. O certo, para que houvesse justiça, seria atrasar duas horas. Uma para tudo voltar ao normal - e até aí, zero a zero - e outra pela hora que te roubaram em outubro, meu velho!!! Será que é tão difícil assim perceber a diferença? A cada ano, te subtraem uma hora de vida, que vai ficar eternamente na sauda…

CAÇAMBA!

Estou com uma caçamba de 5 metros cúbicos estacionada na frente da minha casa. Coisa mais linda, um verdadeiro mimo, com entulho até a boca. 

Resolvi derrubar uma parede para ampliar a sala. Empreitada teoricamente simples, rápida e barata, mas que demandou a locação do compartimento por uma semana. 

Tudo o que você for erguer ou botar abaixo, por mais trivial que seja, abarrota uma caçamba em meia hora. Às vezes em menos tempo. É quando você se dá conta de que a locação de uma semana, o período mínimo exigido pelas locadoras, foi consumida em quinze minutinhos. Só que não interessa, você vai morrer com a locação de uma semana: 250 reais. Com o agravante de que é preciso não perder tempo para tirar a montanha de lixo da sua porta, ligando de novo para o disk-caçamba e implorando por todos os santos que levem embora o quanto antes a geringonça cheia e tragam outra vazia, pois o entulho é maior que o previsto e precisa ser removido para não atrasar a obra e não empacar o pedreiro. 

Há moti…

ÍNDIO NÃO QUER APITO

"Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá que eu vi"
(Caetano Veloso)


O OVNI de aproximadamente 10 hectares de diâmetro foi descendo lentamente sobre Porto Seguro, no mesmíssimo lugar onde atracou a esquadra de Cabral. Embasbacando os turistas dos resorts. Atrapalhando orgias e ménages à trois. Fazendo despencar das prateleiras vodkas russas e uísques 12 anos. Interrompendo transações espúrias com dinheiro público à beira de piscinas. 

E disse o neo-pajé, de sua nave-oca:

O valoroso povo indígena já ocupou este seu mundo centenas de vezes. A última delas foi quando vocês chegaram, em 1500. Depois passamos a reencarnar em planetas mais evoluídos, como recompensa ao sofrimento suportado …

MARMICHEF

Fazer alta culinária na baixa gastronomia. E teria outra saída? Com o preço estratosférico das trufas negras de Périgord e o poder aquisitivo do brasileiro mais ralo que caldinho de feijão em Belford Roxo, a alternativa mostrou-se tão revolucionária quanto salvadora. O que acabou inspirando pratos como Dobradin (leia-se "Dobrrrradan"), Beef au Rolex, Moela au vin e Gateau Miaux - o manjado churrasquinho de gato mal passado. Todos com a inconfundível marca da nouvelle cuisine, a partir de uma formidável e inusitada harmonização de carnes pré-podres de abatedouros clandestinos.

Estroigros, o mito, emprestou generosamente seu talento, sempre remunerado a peso de ouro, em troca de um salário de zinco. Resolveu encarar a empreitada como um esforço de guerra e um desafio descomunal à sua notória habilidade com as caçarolas. 

O custo final agradou em cheio o populacho. Como na culinária francesa a quantidade de comida é inversamente proporcional à complexidade do prato, as quentinhas…