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ALONELAND

É pouco provável que consigamos deter o processo de desertificação de Aloneland. Não a geográfica, mas a desertificação humana mesmo. 

Devagarinho vamos tendo a nítida confirmação de que há, em nosso povo, uma espécie de predestinação ao não-acasalamento. O que não significa um comportamento assexuado, mas um conformismo em lidar com a libido sem a necessidade de outrem.

A estonteante oferta de pornografia na internet, para grande parte das pessoas, é um convite irrecusável à autossuficiência. Com tantas e cada vez mais realistas variações de bem-bom virtual, para quê complicações de relacionamento, DRs até tarde da noite, novas responsabilidades e contas a pagar, papel passado em cartório, sogras, cunhados e congêneres?

É nessa conveniência que está o maior perigo. Um casal precisa ter dois filhos para que a população permaneça basicamente a mesma. Isso é aritmético e incontestável. Se entretanto, esse suposto casal gere apenas uma criança, bastará uma única geração para que o número de…
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SEM PIZZA? SEM CHANCE!

Existe pouquíssima coisa melhor que pizza, embora ninguém possa garantir que essas pouquíssimas coisas sejam, de fato, melhores que ela. Mas, se existirem mesmo, seriam tão poucas que caberiam no espaço de meia pizza brotinho. Com folga.

Não havendo pizza, no mínimo três quartos dos motoqueiros também não existiriam ou estariam fazendo outra coisa na vida, pois não teriam o que entregar. 

Esse nosso mundinho, que já não é lá o melhor lugar da via láctea pra se viver, ficaria insuportável. Até o universo corporativo seria afetado. Os gráficos-pizza do powepoint precisariam se chamar gráficos-queijo, gráficos-torta ou coisa parecida. As esticadas de expediente, madrugada adentro, nas agências de propaganda e redações de jornal, resultariam compreensivelmente improdutivas sem a consoladora perspectiva da uma redonda crocante, de preferência com borda de catupiry ou cheddar, para tirar o estômago das costas e saudar o sol nascente. 

A vida noturna de Sampa seria no mínimo um terço menor, ou …

CÉLULAS-TRONCO, CABEÇA E MEMBROS

A ciência moderna está apenas arranhando a superfície de uma revolução profunda, que mudará radicalmente todos os fundamentos médicos acumulados até agora pela humanidade: as células-tronco e sua infinitas aplicações.

UM NOVO TRONCO A PARTIR DE CÉLULAS-TRONCO
Ao invés de um pulmão, um rim, um fígado ou um coração, já podemos antever para futuro bem próximo a produção, via células-tronco, do tronco inteiro do indivíduo. Incluindo músculos, vasos, artérias, cartilagens, gordura, pele e adjacências. O raciocínio é simples e lógico: se um pâncreas, por exemplo, está caindo aos pedaços, pode-se deduzir que haja um desgaste em toda a vizinhança orgânica. Melhor a substituição do bloco inteiro ao invés de trocar peça por peça, em cirurgias sucessivas que sobrecarregam o paciente e o sistema público de saúde. Entretanto, surge com essa alternativa um certo desconforto estético, já que teremos um tronco estilo "tanquinho" sendo acoplado a braços, pernas e cabeça não tão saudáveis e atl…

A HORA E A VEZ DO PAMONHEIRO

Olha aí, olha aí freguesia
São as deliciosas pamonhas de Piracicaba
Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
É o puro creme do milho verde
Vamos chegando, vamos levando
Temos curau e pamonhas
Venha provar essa delícia
Pamonhas, pamonhas, pamonhas

Mais de 50 anos aguentando essa maldita fala em looping, com esse insuportável locutor, das sete da manhã às oito da noite. Na safra do milho e na entressafra. No começo, eu dirigia o carro - um Gordini já bem velho - e não tinha locutor nem gravação. Eu mesmo anunciava a pamonha. Ia com o vidro aberto e berrando feito louco no megafone. Voltava pra casa com a mão direita cheia de bolhas, de tanto ficar manobrando a direção com um braço só. Já o braço esquerdo retornava da labuta todo seco e descascado, porque o sol só batia nele.

Pamonhas fresquinhas, pamonhas caseiras
Vamos chegando, vamos levando
Venha provar essa delícia

Depois veio a fita-cassete. Play direto no tape TKR com amplificador Tojo, virando a fita a cada meia hora. Em cima do Corcel 2, uma…

PERALTA, POR ONDE ANDAS?

Faltam peraltas na praça. E nas ruas, nas favelas e alphavilles, nas escolas, nos shoppings, academias, quermesses, banheiros públicos, desfiles cívicos, confessionários de igreja e onde mais haja espaço e oportunidade para uma boa e bem arquitetada traquinagem.

O mundo é cinza e tedioso sem um peralta aprontando das suas. Mas tomou chá de sumiço, o danado. O que se vê é, de um lado, uma molecada predominantemente bem-intencionada, e de outro os delinquentes assumidos - tipo os hackers, os praticantes de bullying e os que dão almôndega com veneno pra cachorro. Fora isso, temos os nichos de nerds e outros esquisitos em suas órbitas particulares. Mas o peralta legítimo - aquele gurizinho astucioso, vivaldino, que comete sua maldade de salão de um jeito estudado e atrevido, esse não tem nem pra remédio.

Não é de hoje que o mundo anda escasso de levados. De levados e de levados da breca, seja lá qual for a diferença entre uns e outros. Aquele menino que pegava no telefone e passava trote pe…

ALBERTO E AYRTON

- Santos Dumont! O senhor é o Santos Dumont, né?
- Em carne e osso. Quer dizer, sem carne e sem osso. Você quem é?
- Senna. O Ayrton, sabe?
- Sena? O rio da minha lindíssima Paris?
- Não, não. O rei de Mônaco. Béco, para os íntimos. O piloto, tricampeão da Fórmula 1. O namorado da Adriane Galisteu...
- Agora, puxando pela memória, acho que já ouvi falar de você, sim. Faz pouco tempo que desencarnou, não é?
- Vinte e três anos... o senhor chama isso pouco tempo?
- Ah, foi outro dia mesmo. Pra quem já está aqui desde 1932, você nem gelou a carcaça, meu rapaz. Lembro da minha hora como se fosse hoje. Estava no Guarujá, chateado com o que andavam fazendo com a minha invenção, e  resolvi que não queria mais ficar lá embaixo. Aliás, sempre me senti mais à vontade aqui em cima.


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- Pois é. Se naquele dia fatídico já existisse um cockpit feito com material de caixa preta, talvez eu estivesse salvo. Difícil me acostumar com a ideia, vim pra cá cedo demais.
- Deixa de se lamentar, isso só piora as…

DINHEIRO EM ESPÉCIE

Espécie em extinção (Montantis sumidus)
Por incrível que possa parecer, a espécie em extinção é a mais facilmente encontrada na natureza. Em suas inúmeras variantes, tudo leva a crer que seja originária do Brasil - já que aqui encontra as condições ideais para se reproduzir. Sua ocorrência, entretanto, é comum nos cinco continentes, em ecossistemas capitalistas, socialistas, democráticos, anárquicos ou ditatoriais.

Espécie ululante (octópode da família Moluscus corruptum)
Tem seu habitat natural em sítios de Atibaia, onde alterna sua presença entre os lagos de pedalinhos, antenas de celular da Oi e adegas bem fornidas. Como todos os anfíbios de sua ordem, mostra-se perfeitamente à vontade quando está com as mãos molhadas mas também adapta-se com facilidade a solos arenosos da indústria da seca, desde que não lhe falte o necessário suprimento alcoólico. 

Espécie aécica (Nevis imundícius)
Defende-se dos inimigos naturais atacando vorazmente as reservas públicas, embora afirme que jamais tenh…